“Eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo a ela, também não me salvo a mim.” Ortega y Gasset, “Meditaciones del Quijote”, 1914
Há males que vem para bem. O debate intelectual sobre a realidade é sempre bem-vindo. E o texto de P. Freire Melo, publicado dia 28 de abril no Estadão, provocou debates. Mas entendo que a sua abordagem foi muito limitada. E aí a limitação do escopo prejudica a profundidade.
Para que serve o Estado no capitalismo? E mais precisamente, no capitalismo periférico? E num esforço de democratização da sociedade?
Numa analogia, o navio Atlântico – originalmente um barco inglês de desembarque de tropas, comprado em 2017 pelo Brasil para ser multi-propósito – atendeu atingidos pela enchente em SP, no RS, deu apoio a mega eventos na Amazônia, serve para treinos conjuntos com Marinhas amigas, para a dissuasão de potências, etc.
O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) é similar. Tem sua função original. Mas adquiriu outras novas, num novo contexto político, além do mero economicismo. Suas atividades atuais ultrapassam as “apenas quatro” apontadas no texto para o jornal. E passar a atender as comunidades tradicionais é mais que ampliar anexos: é ser instrumento para cumprir o mandato constitucional de reduzir desigualdades.
É atualíssima uma estrutura como a do Incra, capilarizada e robustecida por concursos recentes e investimentos, multitarefa, para enfrentar a desigualdade, eventos climáticos e a disputa territorial crescente da fase de crise capitalista em que vivemos.
A “especialização” preconizada por P. Freire Melo é que está ultrapassada. Veja-se se as forças armadas mais eficientes querem a eutanásia de seus meios multitarefas…
As coisas públicas mais atuais e democráticas buscam esse sentido republicano mais geral. E a escolha de um veículo da imprensa reacionária para provocar também diz algo. Ali talvez o meio seja a mensagem mais significativa.
Walter Morales Aragão é servidor do Incra, doutor em planejamento urbano e regional pela UFRGS e professor de filosofia. Está na secretaria-geral do Sindiserf-RS (2025-2027)