Em nota técnica divulgada no final de 2025, o Dieese destacou impactos do novo valor do salário mínimo no Brasil, reajustado para R$ 1.621,00 a partir de 1º de janeiro de 2026. Apesar de um aumento nominal de 6,79% e a retomada de uma política de valorização que combina inflação (INPC) e crescimento do PIB, o resultado final revela os efeitos concretos da manutenção de uma política de “austeridade fiscal”, que impõe teto ao ganho real e limita o alcance social da política.
O reajuste considera a inflação de 4,18% (INPC até novembro de 2025) e um aumento real de apenas 2,5%, apesar de o PIB de 2024 ter crescido 3,4%. Segundo observa o Dieese, isso ocorre porque o arcabouço fiscal (Lei Complementar nº 200/2023) limita o crescimento das despesas primárias da União, impedindo o repasse integral do crescimento econômico ao salário mínimo.
Esse impacto não é pequeno. Cerca de 61,9 milhões de pessoas têm rendimentos referenciados no salário mínimo. Com o valor definido em R$ 1.621,00, o incremento de renda na economia será de R$ 81,7 bilhões. Caso ainda vigorasse a regra anterior, que permitia o repasse integral do crescimento do PIB, o piso nacional chegaria a R$ 1.636,00, ou seja, R$ 15,00 a mais, gerando um acréscimo de R$ 93,7 bi na renda, e R$ 12 bi a mais circulando na economia.
Na prática, trata-se de um corte de gastos feito diretamente no bolso da população trabalhadora, sobretudo a de menor renda, que depende do salário mínimo para sobreviver e movimentar o consumo local. No setor público, na esfera municipal, a participação dos servidores que recebem até 1 SM é de 10,72%.
Esse ajuste contrasta com outras despesas que seguem fora de limites rígidos, como o pagamento de juros da dívida pública, as emendas parlamentares bilionárias e as desonerações fiscais concedidas a grandes empresas e setores econômicos.
A nota técnica do Dieese lembra que o salário mínimo é uma das políticas públicas de maior alcance social do país, influenciando salários, aposentadorias, benefícios assistenciais e o mercado de trabalho como um todo. Sua valorização histórica, especialmente entre 2004 e 2014, foi decisiva para reduzir desigualdades, combater a pobreza e fortalecer o mercado interno. Limitar essa política significa frear um dos motores mais eficazes de crescimento com inclusão social.
Apesar do impacto fiscal, parte relevante do aumento do salário mínimo retorna ao próprio Estado por meio da arrecadação tributária, impulsionada pelo maior consumo. Ainda assim, o novo arcabouço fiscal prioriza a contenção de despesas sociais, enquanto preserva mecanismos que favorecem o rentismo e a concentração de renda. Por isso, para, de fato, incluir a classe trabalhadora no orçamento público, essa política de “austeridade fiscal” precisa mudar!
Fonte: Condsef/Fenadsef
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